É engraçado notar que as meninas passaram a jogar futebol, a andar de skate, a fazer molecagens… Já os meninos não transitam com a mesma facilidade nas atividades que um dia foram exclusividades femininas. Tarefa difícil encontrar um menino matriculado em aula de balé, mas o que mais se vê por aí é menina lutando judô, caratê e fazendo bonito. Mas, afinal, o que está acontecendo com as garotas? Parece que, para elas, os tabus caem todos os dias.
O universo das meninas reúne, hoje, o que é considerado feminino - elas continuam brincando de Barbie, adoram se maquiar, amam o mundo cor-de-rosa - mas também adoram o que tradicionalmente era considerado "masculino". Elas transitam com desenvoltura nesses dois mundos.
Meninas poderosas
Yvonne Rousso, 16 anos, começou a jogar videogame quando tinha 6 anos, época em que ganhou seu Nintendo 64. "Desde então, não parei mais. Muito garoto pensa que, por eu ser menina, não sei jogar games de terror, futebol, tiro, ou luta. Dá raiva quando você chega para jogar com algum menino e ele começa a te zombar. Mas eu acho que é nessas horas que a gente tem que criar coragem para enfrentar todos eles. Já ganhei de muitos garotos!", conta Yvonne, que compete nos jogos até com o namorado.
"Acho que, apesar de não admitirem, os garotos acham superlegal que as meninas joguem videogame. Poxa, que garoto não iria querer uma namorada que jogasse games com ele sem achar que é coisa de criança? No fundo, eles gostam. A não ser quando perdem", ri Yvonne.
"A gente pode fazer qualquer coisa que os meninos fazem - e de salto, ainda por cima! Acho que a única diferença entre um garoto e uma menina é que eles podem fazer xixi em pé", diverte-se a adolescente.
Para ela, esse negócio de catalogar certas atividades como "de garoto" é coisa do passado. "Hoje em dia tem muita garota que manda bem melhor do que os garotos em várias coisas. Na minha escola tenho mais um bom exemplo disso. Lá, eles selecionam os alunos de segundo e terceiro ano do Ensino Médio que têm as melhores médias para uma turma ‘especial'. Quinze estudantes foram convocados para essa turma, sendo que apenas um é menino. O resto é só
garota", conta Yvonne, aluna do Externato Santo Antônio, do grupo GPI, no Rio de Janeiro.
Os dois mundos
Mariana Gonçalves, 19 anos, é outra que se divide entre os dois universos. "Sou moleca sem
frescuras", garante. "Mas, quando passa uma barata, eu não mato não!", ri Mariana. Ok, deixemos os insetos nojentos com os meninos, mas não o futebol! "Amo jogar bola! Eu jogava no time da escola como goleira", conta Mariana, que, quando criança, só brincava com bonecos do tipo Power Rangers e fazia aulas de basquete em vez de balé.
Em 2006, ela foi a melhor jogadora do campeonato de futebol da escola e também já participou de muitas competições intercolegiais. "Acho que fui melhor goleira do que muitos meninos por aí, porque eu realmente me dediquei, era uma coisa que eu fazia com muito prazer. Só parei porque me machuquei", conta Mariana, que é extremamente vaidosa. "Meu cabelo é a coisa mais importante para mim! Ele é vermelho, então eu pinto e hidrato com frequência e sempre uso os melhores produtos. Quando eu jogava bola, era um caos, mas eu ficava com ele preso, com creme de pentear, para não correr o risco de ficar descabelada.
Também adoro me maquiar, não vou à padaria sem um lápis no olho e até quando eu jogava futebol eu passava. Com o suor, ia borrando, mas eu sempre ajeitava com uma toalha", conta Mariana.
Dentro de casa, ela também é para lá de prendada. "Cozinhar não é muito comigo, mas eu faço uma boa faxina! Gosto de tudo arrumadinho. Teve uma época em que morei só com o meu pai, porque minha mãe viajava muito, então eu limpava tudo, mas colocava ele para lavar a louça. Eu tinha que botar ordem na casa, né!?", ri a adolescente.
Janaína Silva, 15 anos, é mais um exemplo de que as meninas, hoje, podem tudo. "Faço um monte de coisas que só menino faz, tipo jogar futebol e andar de skate. Jogo bola com garotos que nunca vi na vida! Onde tem jogo rolando, eu me meto! Alguns meninos zoam os jogadores quando eles são driblados por meninas e até nos elogiam", orgulha-se Janaína.
Ela também adora ir ao shopping, fazer compras, namorar e desenhar. "Desenho tudo o que vejo pela frente, mas também crio. Pinto sol, flores…", enumera. "Minha mãe não gosta muito que eu jogue futebol, porque acha que é coisa de moleque, mas a minha avó me dá a maior força, sempre vai comigo aos jogos. Vai entender!", diverte-se Janaína.
Elas quebraram barreiras
É mesmo uma grande ironia: garotinhas dos anos 50 brincavam de boneca para aprender a cuidar dos filhos e tinham aulas de bordado e culinária para serem boas donas de casa. Hoje, elas podem se dar muito bem com a agulha, com receitas de bolo e com a faxina, mas expandiram seu universo, enquanto muitos homens ficaram presos a modelos tradicionais de masculinidade.
Para a mulher, não existe mais um padrão de comportamento. Desde pequenas, elas jogam bola, videogame, sobem em árvores e se divertem de muitas formas que são consideradas "masculinas". Já os garotos sofrem com o preconceito, questões de honra e sexualidade. Ai do menino que pega uma boneca emprestada da irmã, da amiga ou da vizinha para brincar!
Muita gente olha torto.
"Acho que o que está acontecendo é o início de uma mudança para uma igualdade maior entre os gêneros. A grande revolução feminina ocorreu nos anos 60, com as mulheres da geração de Leila Diniz, e o que vemos, hoje, é o resultado natural de séculos de lutas por uma igualdade maior e pelo fato de as mulheres serem cada vez mais independentes em todos os domínios", afirma a antropóloga Mirian Goldenberg, autora de "Toda mulher é meio Leila Diniz" (Editora BestBolso).
De acordo com a psicopedagoga Marlúcia Pessoa, as meninas estão mesmo muito mais poderosas. "A mulher passou muito tempo reprimida e, depois que conquistou mais liberdade, ganhou poder para galgar novos espaços para si mesma. E é isso o que as meninas dessa nova geração estão sentindo e aproveitando muito bem: o espaço e a liberdade que a geração passada conquistou", explica Marlúcia.
No Colégio Stockler, onde a psicopedagoga trabalha, tem muitas meninas fazendo aulas de capoeira. "Tem até um grupo de mães que se uniu para fazer aulas também. Não foram os pais, mas sim as mulheres, que optaram pela luta. Isso é muito curioso. Não vejo mais nos pais o ‘medo' de as filhas virarem homossexuais só porque querem fazer judô, mas, se um menino quiser fazer balé, os pais ficam com o pé atrás. Alguns não deixam mesmo", observa Marlúcia.
Um estímulo à diversidade e um viva às diferenças!
Segundo a antropóloga Mirian Goldenberg, é muito importante destruir as barreiras entre o que é feminino e masculino, deixar as crianças livres para experimentarem o mundo com todas as suas possibilidades. "O que é considerado masculino e feminino é apenas uma construção cultural. Quem disse que cor-de-rosa, por exemplo, é algo apenas das mulheres?
Junto com essa classificação ‘feminino/masculino' vem uma série de estereótipos e preconceitos que limitam as crianças", afirma Mirian.
A psicopedagoga Marlúcia Pessoa assina embaixo e acrescenta: "É muito importante incentivar a diversidade, mas sempre trabalhando as diferenças". Homem é homem, mulher é mulher. "As diferenças físicas e hormonais, por exemplo, são evidentes. Então, é importante você mostrar para uma menina que ela pode, sim, lutar judô, mas que também pode perder para um menino porque ele, de repente, tem mais força", explica Marlúcia Pessoa.
"Mas o que as pessoas precisam entender é que essas diferenças são verdadeiros ganhos, porque são elas que completam os dois universos - o masculino e o feminino", afirma a psicopedagoga. Se o homem é mais forte e a mulher mais sensível, ótimo, está feito o equilíbrio. E se as meninas estão partindo para o universo da força, do masculino, é hora de os meninos também testarem a sua sensibilidade, já que, ao longo dos anos, os homens se perderam um pouco nessa ‘briga' com a mulher.
"Na escola, eu já vejo alguns meninos conquistando isso. Eles escrevem poesias, choram porque sabem que não é ‘coisa de mulherzinha', mas, para eles, ainda é difícil. Existe muito preconceito por conta da questão da homossexualidade. Então, talvez quem mais esteja precisando de uma revolução, nesse momento, são os homens. Chegou a vez de os meninos dizerem que querem fazer aulas de balé, sem esse negócio de que ‘é coisa de menina'. Só assim caminharemos para uma sociedade de direitos verdadeiramente iguais", afirma Marlúcia Pessoa.
O universo das meninas reúne, hoje, o que é considerado feminino - elas continuam brincando de Barbie, adoram se maquiar, amam o mundo cor-de-rosa - mas também adoram o que tradicionalmente era considerado "masculino". Elas transitam com desenvoltura nesses dois mundos.
Meninas poderosas
Yvonne Rousso, 16 anos, começou a jogar videogame quando tinha 6 anos, época em que ganhou seu Nintendo 64. "Desde então, não parei mais. Muito garoto pensa que, por eu ser menina, não sei jogar games de terror, futebol, tiro, ou luta. Dá raiva quando você chega para jogar com algum menino e ele começa a te zombar. Mas eu acho que é nessas horas que a gente tem que criar coragem para enfrentar todos eles. Já ganhei de muitos garotos!", conta Yvonne, que compete nos jogos até com o namorado.
"Acho que, apesar de não admitirem, os garotos acham superlegal que as meninas joguem videogame. Poxa, que garoto não iria querer uma namorada que jogasse games com ele sem achar que é coisa de criança? No fundo, eles gostam. A não ser quando perdem", ri Yvonne.
"A gente pode fazer qualquer coisa que os meninos fazem - e de salto, ainda por cima! Acho que a única diferença entre um garoto e uma menina é que eles podem fazer xixi em pé", diverte-se a adolescente.
Para ela, esse negócio de catalogar certas atividades como "de garoto" é coisa do passado. "Hoje em dia tem muita garota que manda bem melhor do que os garotos em várias coisas. Na minha escola tenho mais um bom exemplo disso. Lá, eles selecionam os alunos de segundo e terceiro ano do Ensino Médio que têm as melhores médias para uma turma ‘especial'. Quinze estudantes foram convocados para essa turma, sendo que apenas um é menino. O resto é só
garota", conta Yvonne, aluna do Externato Santo Antônio, do grupo GPI, no Rio de Janeiro.
Os dois mundos
Mariana Gonçalves, 19 anos, é outra que se divide entre os dois universos. "Sou moleca sem
frescuras", garante. "Mas, quando passa uma barata, eu não mato não!", ri Mariana. Ok, deixemos os insetos nojentos com os meninos, mas não o futebol! "Amo jogar bola! Eu jogava no time da escola como goleira", conta Mariana, que, quando criança, só brincava com bonecos do tipo Power Rangers e fazia aulas de basquete em vez de balé.
Em 2006, ela foi a melhor jogadora do campeonato de futebol da escola e também já participou de muitas competições intercolegiais. "Acho que fui melhor goleira do que muitos meninos por aí, porque eu realmente me dediquei, era uma coisa que eu fazia com muito prazer. Só parei porque me machuquei", conta Mariana, que é extremamente vaidosa. "Meu cabelo é a coisa mais importante para mim! Ele é vermelho, então eu pinto e hidrato com frequência e sempre uso os melhores produtos. Quando eu jogava bola, era um caos, mas eu ficava com ele preso, com creme de pentear, para não correr o risco de ficar descabelada.
Também adoro me maquiar, não vou à padaria sem um lápis no olho e até quando eu jogava futebol eu passava. Com o suor, ia borrando, mas eu sempre ajeitava com uma toalha", conta Mariana.
Dentro de casa, ela também é para lá de prendada. "Cozinhar não é muito comigo, mas eu faço uma boa faxina! Gosto de tudo arrumadinho. Teve uma época em que morei só com o meu pai, porque minha mãe viajava muito, então eu limpava tudo, mas colocava ele para lavar a louça. Eu tinha que botar ordem na casa, né!?", ri a adolescente.
Janaína Silva, 15 anos, é mais um exemplo de que as meninas, hoje, podem tudo. "Faço um monte de coisas que só menino faz, tipo jogar futebol e andar de skate. Jogo bola com garotos que nunca vi na vida! Onde tem jogo rolando, eu me meto! Alguns meninos zoam os jogadores quando eles são driblados por meninas e até nos elogiam", orgulha-se Janaína.
Ela também adora ir ao shopping, fazer compras, namorar e desenhar. "Desenho tudo o que vejo pela frente, mas também crio. Pinto sol, flores…", enumera. "Minha mãe não gosta muito que eu jogue futebol, porque acha que é coisa de moleque, mas a minha avó me dá a maior força, sempre vai comigo aos jogos. Vai entender!", diverte-se Janaína.
Elas quebraram barreiras
É mesmo uma grande ironia: garotinhas dos anos 50 brincavam de boneca para aprender a cuidar dos filhos e tinham aulas de bordado e culinária para serem boas donas de casa. Hoje, elas podem se dar muito bem com a agulha, com receitas de bolo e com a faxina, mas expandiram seu universo, enquanto muitos homens ficaram presos a modelos tradicionais de masculinidade.
Para a mulher, não existe mais um padrão de comportamento. Desde pequenas, elas jogam bola, videogame, sobem em árvores e se divertem de muitas formas que são consideradas "masculinas". Já os garotos sofrem com o preconceito, questões de honra e sexualidade. Ai do menino que pega uma boneca emprestada da irmã, da amiga ou da vizinha para brincar!
Muita gente olha torto.
"Acho que o que está acontecendo é o início de uma mudança para uma igualdade maior entre os gêneros. A grande revolução feminina ocorreu nos anos 60, com as mulheres da geração de Leila Diniz, e o que vemos, hoje, é o resultado natural de séculos de lutas por uma igualdade maior e pelo fato de as mulheres serem cada vez mais independentes em todos os domínios", afirma a antropóloga Mirian Goldenberg, autora de "Toda mulher é meio Leila Diniz" (Editora BestBolso).
De acordo com a psicopedagoga Marlúcia Pessoa, as meninas estão mesmo muito mais poderosas. "A mulher passou muito tempo reprimida e, depois que conquistou mais liberdade, ganhou poder para galgar novos espaços para si mesma. E é isso o que as meninas dessa nova geração estão sentindo e aproveitando muito bem: o espaço e a liberdade que a geração passada conquistou", explica Marlúcia.
No Colégio Stockler, onde a psicopedagoga trabalha, tem muitas meninas fazendo aulas de capoeira. "Tem até um grupo de mães que se uniu para fazer aulas também. Não foram os pais, mas sim as mulheres, que optaram pela luta. Isso é muito curioso. Não vejo mais nos pais o ‘medo' de as filhas virarem homossexuais só porque querem fazer judô, mas, se um menino quiser fazer balé, os pais ficam com o pé atrás. Alguns não deixam mesmo", observa Marlúcia.
Um estímulo à diversidade e um viva às diferenças!
Segundo a antropóloga Mirian Goldenberg, é muito importante destruir as barreiras entre o que é feminino e masculino, deixar as crianças livres para experimentarem o mundo com todas as suas possibilidades. "O que é considerado masculino e feminino é apenas uma construção cultural. Quem disse que cor-de-rosa, por exemplo, é algo apenas das mulheres?
Junto com essa classificação ‘feminino/masculino' vem uma série de estereótipos e preconceitos que limitam as crianças", afirma Mirian.
A psicopedagoga Marlúcia Pessoa assina embaixo e acrescenta: "É muito importante incentivar a diversidade, mas sempre trabalhando as diferenças". Homem é homem, mulher é mulher. "As diferenças físicas e hormonais, por exemplo, são evidentes. Então, é importante você mostrar para uma menina que ela pode, sim, lutar judô, mas que também pode perder para um menino porque ele, de repente, tem mais força", explica Marlúcia Pessoa.
"Mas o que as pessoas precisam entender é que essas diferenças são verdadeiros ganhos, porque são elas que completam os dois universos - o masculino e o feminino", afirma a psicopedagoga. Se o homem é mais forte e a mulher mais sensível, ótimo, está feito o equilíbrio. E se as meninas estão partindo para o universo da força, do masculino, é hora de os meninos também testarem a sua sensibilidade, já que, ao longo dos anos, os homens se perderam um pouco nessa ‘briga' com a mulher.
"Na escola, eu já vejo alguns meninos conquistando isso. Eles escrevem poesias, choram porque sabem que não é ‘coisa de mulherzinha', mas, para eles, ainda é difícil. Existe muito preconceito por conta da questão da homossexualidade. Então, talvez quem mais esteja precisando de uma revolução, nesse momento, são os homens. Chegou a vez de os meninos dizerem que querem fazer aulas de balé, sem esse negócio de que ‘é coisa de menina'. Só assim caminharemos para uma sociedade de direitos verdadeiramente iguais", afirma Marlúcia Pessoa.
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